O que é que fica depois do Amor?
Fica a amizade; o rancor; a tristeza; o vazio; o ódio; a lembrança terna; as memórias vãs; a descrença; a força; a sabedoria...?!
Pode ficar um sem número de sentimentos isolados, ou simplesmente misturados, como que a uma receita cujos ingredientes se vão acumulando, e algumas vezes nem percebemos o seu paladar. Tentando distinguir se estes ingredientes não serão afinal apenas distinguidos em momentos diferentes.
E do sabor, pode ficar o amargo de uma vitória inesperada ou o doce consolo de uma despedida.
Depois do Amor ficamos assim, naufragados em inúmeras perplexidades. Saber que se trata de um fim, mas que este é o pronúncio de algo que ainda está para vir. Algo que se anseia, colhendo o que de melhor temos, o que de melhor somos. Algo em que depositamos as nossas esperanças, a nossa garra, a nossa fome de voltar a amar.
Depois do Amor, queremos mais. Mesmo que não o entendamos dessa maneira, queremos voltar a cair, voltar a sorrir, voltar a beber daqueles lábios que nos transportam para lá da sombra; queremos voltar a mergulhar naquele olhar que é só nosso; queremos pura e simplesmente perdermo-nos naqueles braços que nos sufocam e nos amarrotam o corpo, por entre suor e força da paixão; queremos partilhar aquele silêncio que nos intimida e nos torna únicos; queremos dissolver os sentimentos em lágrimas e gritos de alegria; queremos mostrarmo-nos nús de preconceitos e de mitos; queremo-nos despir de máscaras que nos perseguem na rotina; queremos ser nós próprios e que olhem para nós como especiais, nem que por breves segundos; queremos gargalhar e sorrir de desejo; queremos segredar as nossas fantasias; queremos rebolar na montanha russa dos sentidos; queremos isto tudo, e tantas, tantas outras coisas... mesmo que o desfecho seja penoso, doloroso... sabemos que há solução...
Depois do Amor, como posso virar costas a isto tudo?! Mesmo sobressaltada entre interrogações e desespero de ausência de respostas, com medo de não saber o que é o devir, não quero nem posso desistir daquilo que me prende a toda esta encenação que não é mais do que uma página da minha vida. Quero escrever e reescrever mil vezes que depois do Amor, há sempre outro Amor para ser espelhado em mim.
Amo o que foi e hei-de amar o que representou para mim.
Mas está na hora de virar e perceber qual o caminho a percorrer neste labirinto de opções que não se esgotam.
Quero perder-me novamente no aconchego de um mermúrio dito ao ouvido...
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
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